
Estresse e os custos energéticos para o cafeeiro
Especialista em fisiologia analisa riscos para a planta em anos de bienalidade negativa
Atualizado em 10/10/2023
Estresse e os custos energéticos para o cafeeiro
Especialista em fisiologia analisa riscos para a planta em anos de bienalidade negativa

Por Redação em 03/10/2022
Atualizado em 10/10/2023
Pela fotossíntese das folhas, o cafeeiro produz glicose. Que serve, pois, como substrato para a respiração (Glicólise, Ciclo de Krebs e Cadeia de Transporte de Elétrons Mitocondrial). E essa etapa, a princípio, tem como uma das funções produzir energia na forma de ATP (36 ATPs/glicose).
O professor de fisiologia e engenheiro agrônomo José Donizeti Alves avalia o processo e explica os custos energéticos para a planta. “O pool de Adenosina Tri Fosfato (ATP) serve como um depósito temporário de energia, que é prontamente utilizável pela célula na realização de suas funções, entre elas: fazer a planta crescer, produzir e sobreviver”, diz.
Custos energéticos para o cafeeiro
Para cada um desses processos, no entanto, requer uma certa quantidade de energia. Em termos bioquímicos, é definida como custo energético de construção ou preservação. Que é a quantidade de glicose, carbono ou ATP que a planta utiliza para formar um grama de biomassa ou de grama de biomoléculas, respectivamente.
Sob condições normais de clima e com um manejo adequado, por exemplo, a maior fração dessa energia é carreada para atender os processos de crescimento e produção. E, assim, uma pequena parte é utilizada no combate aos estresses do dia a dia.
Por outro lado, sob condições de clima adverso ou de manejo inadequado, a maior parte da energia é desviada. Para montar estratégias de sobrevivência e não para os processos de crescimento e produção.
É preciso entender a Bienalidade
Nesse contexto, é importante destacar que o alto crescimento vegetativo do cafeeiro, em anos de bienalidade negativa, logicamente não traz de imediato nenhum benefício para a produção. Pois os custos energéticos de construção de folhas (biomassa fotossinteticamente ativa) são geralmente muito elevados.
Entretanto, a médio prazo, essa alta demanda de energia leva a grandes benefícios à produção. Pois a alocação preferencial de energia para mecanismos de crescimento vegetativo aumenta o balanço de energia para próximo ano. Dessa forma, em um ano de bienalidade positiva o crescimento predispõe a lavoura a produzir mais.
Portanto, ao contrário do que muitos pensam, aceitar a bienalidade não é negar o papel central da produção de grãos pelo cafeeiro, mas sim reconhecer que a produção de biomassa, além de um meio de produzir e armazenar energia é, também, uma estratégia que o cafeeiro utiliza para deixar mais descendentes (sementes) no próximo ano.
Como resultado, esse raciocínio leva a concluir que alta produtividade, com alto custo metabólico para produção de um número elevado de sementes pode levar, consequentemente, a um fator de estresse para o cafeeiro, em ano de bienalidade negativa. Pois, por analogia, há uma alternância de produção entre os anos.
Biomassa
Do mesmo modo, sob o ponto de vista evolutivo, a planta é apenas o meio pelo qual a semente utiliza para produzir mais sementes. Assim, para sobreviver a estresses como a estiagem, por exemplo, o cafeeiro lança mão de estratégias que gastam muita energia, mas que, no curto prazo, não se revertem em alocação de biomassa verde.
Reconhecido o estresse no cafeeiro, quando murcham as folhas apenas nas horas mais quentes do dia, aumenta a respiração (consome mais glicose) para produzir mais energia, a ser utilizada, por exemplo, na síntese de ABA (para fechar os estômatos) e de etileno (para inibir o crescimento), ativação de sistemas antioxidantes e produção de outras moléculas sinalizadoras.
Na sequência, quando o estresse já está instalado e é perceptível pelas folhas murchas ao amanhecer. A planta aumenta ainda mais a produção e gasto de energia. Acelerando o consumo de glicose, a fim de produzir mais energia para usá-la na síntese de produtos secundários.
Nesse caso, são verificadas modificações morfológicas como proliferação de radicelas; diminuição de estruturas reprodutivas; espessamento de folhas; modificações celulares como deposição de cera e cutícula; lignificação de tecidos; proteínas de transporte de membranas; rearranjo nos lipídeos das membranas; síntese de moléculas osmoticamente ativas e aquaporinas e; finalmente, elevação na síntese de etileno com a produção de níveis tóxicos de EROS.
Do mesmo modo, com a intensificação do estresse, a pressão ambiental rompe as barreiras de defesas. E inicia-se a morte de radicelas, queda de estruturas reprodutivas, ramificações e ramos ladrões, modificações celulares como cavitação no xilema, disparo na síntese de etileno, aumento na toxidez das EROS. Bem como paralisação na síntese de antioxidantes que, em conjunto, dá início à senescência geral da planta.
Riscos para a planta
Finalmente, como golpe final, há o esgotamento das reservas e da energia das plantas com o iminente colapso de todas as funções fisiológicas do cafeeiro. Como resultado, a produção é mínima (catação) e o replantio, por fim, é a única solução para a continuidade da atividade cafeeira.
Em conclusão, os custos energéticos dos estresses do cafeeiro acabam desviando a energia que poderia utilizar para o crescimento vegetativo e reprodutivo. Esses custos, finalmente, ficam concentrados em processos de sobrevivência. R esultando em menor volume de safra, que no caso do cafeeiro pode-se estender por até dois anos.
Assim, qualquer semelhança com os dois últimos anos agrícolas, onde tivemos uma seca prolongada, intercalada por geadas e perdas, com comprometimento da produtividade nas lavouras, não é mera coincidência.
*Prof. Dr. José Donizeti Alves é Engenheiro Agrônomo e especialista na área de Fisiologia da Produção do Cafeeiro.
– FisioCafé Consultoria e Palestras Ltda – fisiocafeconsult@gmail.com
Assine nossa Newsletter
Cadastre-se gratuitamente e receba nossa newsletter para ficar por dentro das novidades do mercado de café.
Continue lendo

Atilla Torradores promove workshops gratuitos de torra de cafés especiais na Brasil Honey Show

Futuro do café passa por inovação e sustentabilidade

Painel Café em Números reúne dados da cafeicultura brasileira
